Vivemos na era da medicina defensiva e da ansiedade diagnóstica. Quanto mais tecnologia, mais exames. Quanto mais exames, mais achados incidentais. Quanto mais achados, mais intervenções — nem sempre necessárias.
O problema do "quanto mais, melhor"
Existe uma crença moderna de que fazer muitos exames é sinônimo de cuidado. Na prática, exames sem indicação clínica geram mais problemas que soluções: resultados falso-positivos, procedimentos invasivos desnecessários, custos emocionais e financeiros.
Um nódulo benigno de tireoide que nunca causaria sintoma vira cirurgia. Uma alteração discreta no PSA vira biópsia de próstata sem necessidade. Um achado casual na ressonância vira ansiedade crônica.
Quando o exame faz sentido
Exames devem ser pedidos quando:
- Há sintomas que precisam ser investigados
- Existe histórico familiar relevante e rastreamento é indicado
- Há fatores de risco específicos (tabagismo, obesidade, hipertensão)
- O resultado vai mudar conduta — seja para tratar, acompanhar ou tranquilizar com embasamento
Fora dessas situações, a maioria dos exames é opcional — ou até prejudicial.
Rastreamento: nem tudo precisa ser rastreado
Rastreamento de câncer, por exemplo, só faz sentido quando há evidência de que detectar precocemente melhora desfecho. Mamografia após os 50 anos? Sim, há benefício comprovado. Tomografia de corpo inteiro anual em pessoas jovens e saudáveis? Não há benefício — e pode causar dano.
O mesmo vale para exames genéticos, ressonâncias "de rotina", dosagens hormonais sem sintomas. Nem tudo que pode ser medido deve ser medido.
O papel da conversa
Antes de pedir qualquer exame, vale perguntar: "O que vamos fazer com esse resultado?". Se a resposta for "nada" ou "não sei", talvez o exame não precise ser feito agora.
Às vezes, o melhor cuidado é explicar por que determinado exame não é necessário — e evitar uma cascata de intervenções desnecessárias.
Tecnologia como ferramenta, não como fim
A tecnologia é poderosa quando usada no momento certo, para as pessoas certas, com as perguntas certas. Fora disso, vira ruído — e às vezes, iatrogenia.
Cuidar da saúde não é fazer check-list infinito de exames. É ouvir, contextualizar e intervir com sabedoria.