Este é um espaço de anotações — fragmentos do cotidiano clínico, reflexões sobre escolhas, pequenas observações que se acumulam com os anos de prática.
Sobre ouvir
Aprendi que a maior parte das vezes, as pessoas já sabem o que está errado. Não precisam de diagnóstico complexo — precisam de espaço para falar sem pressa, sem julgamento.
Quando alguém diz "não durmo bem", quase sempre há uma história por trás. Trabalho excessivo. Preocupação com filho. Luto não elaborado. A insônia é consequência, não causa.
Sobre escolhas
Ninguém muda por bronca. Ninguém adere a tratamento por medo. Mudança real vem quando a pessoa entende o porquê, sente que é possível e tem suporte no caminho.
Prescrever "faça exercício" sem perguntar "o que é possível para você?" é perda de tempo. O ideal é inimigo do possível.
Sobre tempo
A medicina rápida é eficiente para trauma, infecção aguda, emergência. Mas para doenças crônicas, para prevenção, para qualidade de vida — é preciso tempo. Tempo para ouvir, para observar, para ajustar.
Consulta de 15 minutos resolve burocracia. Não resolve vida.
Sobre incerteza
Aprendi a dizer "não sei" com mais frequência. Não sei se esse sintoma vai sumir sozinho ou virar algo maior. Não sei se esse exame vai ajudar ou só gerar ansiedade. Não sei se esse tratamento vai funcionar para você especificamente.
Medicina não é ciência exata. É ciência possível — com margem de erro, individualidade e humildade.
Sobre o básico
Depois de anos, continuo voltando ao básico: sono, comida, movimento, vínculos. Não porque é simplista — mas porque funciona. E porque é o que a maioria das pessoas negligencia enquanto busca soluções complexas.
O básico não vende. Não promete milagre. Mas sustenta.
Sobre presença
No fim, medicina é relação. Não é só técnica, protocolo, exame. É estar presente. É olhar nos olhos. É perceber quando algo não foi dito. É criar espaço para que a pessoa se sinta vista — não como número, não como patologia, mas como gente.
Isso não cabe em prontuário eletrônico. Mas é o que faz diferença.